Wednesday, December 24, 2008

porque hoje é Natal fernando Pessoa dixit:

Natal... Na província neva

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
(Notícias Ilustrado, n.º 29, 30 de Dezembro de 1928)

Afinal de contas 2008 foi um ano de desgraça sem graça com neve na praça e muita farsa

Monday, December 15, 2008

Musica maestro. O Titanic está a afundar-se! Play it again Oncle Sam! O jogo da pirâmide está aberto. Façam as vossas apostas. New Orleans again! Jazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

Em plena crise financeira e há beira de uma recessão geral. E depois uma deflação à maneira. Ninguém viu? Alguém avisou? Bela economia esta. Afinal o casino é menos arriscado.
Tempo de pregadores: Alberto Caeiro é que os topava!

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse faze-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais
Para qual fui injusto – eu, que as vou comer a ambas?

Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.

Saturday, September 13, 2008

Pessoa tinha razão. O estado da coisa é tal que motivos para dizer

"Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo
extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de
destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da
própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos
troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão." (Livro do Desassossego by Bernardo Soares).

Monday, August 25, 2008

Viagem ao universo Pessoa. Esperam-se inscrições dos que não sendo eruditos de Pessoa são os que acreditam que Pessoa faz parte das suas vidas. Dos que não vivem da arca de Pessoa e das modas literárias do momento.

Como disse Caeiro :

"Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus. Sou fácil de definir. Vi como um danado. Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi. Além disso fui o único poeta da Natureza."

Acreditar nisto é a essência do culto de Pessoa. Como Jesus Cristo expulsou os vendilhões do templo também nós, os que amamos Pessoa, devemos expulsar os vendedores dos falsos pessoas da moda

Tuesday, July 01, 2008

Fernando. Para que meteste tudo só num baú ? Agora são 7 cães a 1 osso por causa do teu espólio. Se tivesses enfiado os escritos num cofre enterrado a 1000 metros com o código entregue ao bernardo soares, tinhas criado um enigma digno de um policial histórico. Só na Morte és Grande. Viva o Quinto Império.

Tuesday, June 17, 2008

Petroleo a 140 USD e o milho a preços de trufa. A diligência para Bruxelas parte amanhã puxada a 50 cavalos de tiro com 10 milhões de passageiros a roeram o resto da merenda. Como na Mensagem escreveste :

"A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.
O rosto que fita é Portugal."

O rosto da Europa que fita o Ocidental Oceano é Portugal. O Quinto Império nunca mais começa.

Meu caro Pessoa. Hoje não há cão nem gato que não te cante loas e aleluias. No tempo em que era preciso pensar, ninguém (dos poderosos da intelectualidade dominante) te apoiou. Os vermes voltaram para te comerem a eternidade e ganharem prestígio à tua custa. Deixa lá: eles nunca hão-de casar com a filha da tua costureira. Apesar de tardio, bom aniversário na Rua dos Douradores.

Friday, May 16, 2008

Afinal Pessoa, és famoso, és um dos mais influentes personagens do século XX. Quem diria! Se bem te lembras, no tempo em que repartias por outros teus iguais (campos, Reis, Caeiro, Soares...), os "inteligentes" da literatura portuguesa nem sequer sabiam quem era o Alves da Tabacaria de Campos. Julgavam que era um dos proprietários da fábrica de "sigarros" do Conde Barão. Não estranhes a ortografia de cigarros. O novo acordo ortográfico permite ajustar a língua à cagança de cada um. É como a linguiça. Quanto mais fininha e cheirosa mais apetitosa.

Sunday, April 06, 2008

De Bernardo Soares depois de uma noite de azia: Bem prega Frei Tomaz. Olha para o que ele diz e não para o que ele faz. Os pregadores da moral e da ética republicana deviam olhar para o exemplo que dão ao zé povinho quando fazem o contrário do que apregoam. Ao menos o patrão Vasques não engana ninguém. Pão pão queijo queijo. Quem não é por ele vai direitinho para o meio da rua.

Saturday, March 01, 2008

Grande confusão na rua dos douradores. A Ermelinda que trabalha para o patrão Vasques não consegue explicar ao ezequiel como se faz a avaliação de um cliente. Há sarilhos no excritório e o patrão Vasques já disse que punha os dois na rua se não tivessem resultados até ao fim do dia.

Thursday, February 14, 2008

A Rua dos Douradores está confusa. E não é devido à fiscalização da ASAE. Continua a ser permitido fumar e hà tabernas com passarinhos fritos. Acontece que houve uma remodelação da gerência do escritório do zé melro e os canários desataram a chilrear. Talvez por influência de Caeiro esse fanático do bucolismo campestre em Lisboa.

Thursday, January 31, 2008

A vida continua e que ontem era hoje já não é. O Campos partiu no vapor das 5 para o sul. Miss Daysy, coitada, foi ver museus para Londres. O dono da Tabacaria sorriu. A venda de tabaco não está proibida, mas fumar tabaco está. Belo negócio

Wednesday, January 02, 2008

Grande ano que começa. Petróleo a 100 dólares, taxas de juro a 6%, desemprego a 8.5%. Haja optimismo e sopa do sidónio. 1929 é logo ali à esquina do tempo. E Pessoa não podia estar mais céptico do que Alvaro de Campos quando viu o Esteves da Tabacaria a sorrir. Ri de quê?