A procissão do Santo António de Lisboa
Pessoa encontra o seu amigo Bernardo Soares na Taberna do Antunes e travam o seguinte diálogo.
- Bernardo: e se fôssemos ver a procissão depois de fumarmos o nosso tabaquinho e bebermos a moreninha (aguardente de figo a 50 graus).
- Oh Pessoa. Achas que vale a pena? O andor é velho e os sacristões são falsos. Fora o as bilhas partidas.
- Mas víamos o espetáculo do chapéu na mão e depois podíamos escrever um verso.
- Boa ideia Pessoa. Tu escreves uma versalhada e eu ponho o andar no Livro do Desassossego.
Então Pessoa recita o verso
Descalço sobre o andor
vai o santo de Lisboa
pregador de sermões aos peixes
inseguro e bem nutrido
vai formoso o nosso António.
à frente da procissão
vão os bispos do costume
seguem atrás os mirones
pedintes e literatos
Santo António e os retratos
Nunca houve santo mais lindo
desta Lisboa dos pregões
Nas tabernas saem iscas
copos de três a granel
para animar as multidões
Descalço e não seguro
vai António no andor
Santo milagreiro maior não há
em água todos os líquidos transforma
para pescar os peixinhos.
Boa Pessoa, aplaude Bernardo. E replica:
Na rua dos douradores santo antónio vai ao balcão à taberna do Antunes bebe uma ginja e come a febra, sobe para cima da mesa e grita à multidão! Viva o rei Sebastião.
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