Sunday, July 23, 2006

Balada do reformado Costa

O senhor costa da mouraria
O tempo passava na sua loja
Dos clientes à espera de dia
A fazer contas à vida à noite.
Mal o dia amanhecia
Aí estava ele a olhar
Dizia a todos bom dia
E começava a pensar.
Que o tempo lhe fugia
Do seu eterno ficar.
Que talvez também um dia
Ele não pudesse ali estar.
Se ao menos ele soubesse
Como aprender a sonhar
Como os miúdos travessos
Na praça sempre a brincar.

O senhor costa da mouraria
Um dia não apareceu
Ninguém ouviu o bom dia
Na loja onde viveu.
Quem sabe onde estaria
Quem sabe se não morreu.
Talvez para ser diferente
Da rotina de ali estar
Sem avisar os clientes
partira para sonhar,
Como os miúdos da frente
Decidira não mais ficar.
Porque afinal ele também
Gastara todo o seu tempo
A espera de quê e de quem?
Sorrindo sem um lamento!

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